segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Avaliação Global de português do 9º E.F. gabaritada

01. (FEI-SP) Em “É impossível esquecer as profecias de Aldous Huxley em seu Admirável Mundo Novo”, o termo em destaque foi formado por qual dos processos de formação das palavras?

a) Derivação prefixal

b) Derivação regressiva

c) Derivação parassintética

d) Derivação sufixal

e) Derivação imprópria

02. (FGV-SP) Assinale a alternativa em que se observe o mesmo processo de formação de palavras que ocorre em empobrecer.

a) Apogeu.

b) Apelar.

c) Circular.

d) Crucifixo.

e) Apedrejar.

03. (UERJ) Observe as seguintes palavras:

lobisomem - composição por aglutinação

linguarudo - derivação sufixal

Identifique o processo de formação de cada uma delas.

04. (UERJ) Quanto ao processo de formação, a palavra “estatuária” é classificada do mesmo modo que:

a) algarismo.

b) desconhecida.

c) pirogravura.

d) domingueira.

05. .(U.E. Ponta Grossa-PR) Assinale V para a sentença que for verdadeira e F para a que for falsa. Quanto à formação de vocábulos, é certo que:

( V ) o prefixo indica negação nos vocábulos “impossíveis” e “inimaginados”;

( V ) o substantivo “fundação” é formado por sufixação a partir do verbo “fundar”;

( F ) “parisiense” é vocábulo composto formado por justaposição;

( F ) “simultaneamente” é vocábulo formado por parassíntese a partir de um adjetivo na

forma feminina;

( V ) “glamourizou” é forma de pretérito perfeito de um verbo criado por derivação sufixal

a partir de um estrangeirismo.

06. (U.E. Ponta Grossa-PR - modificada) Assinale V para a sentença que for verdadeira e F para a que for falsa. Analisou-se corretamente a formação dos vocábulos em:

( V ) macaco-prego – substantivo composto formado pela justaposição de duas bases nominais;

(V) recentemente – advérbio formado por sufixação a partir de um adjetivo;

( V) destreza – substantivo formado por derivação sufixal com base em adjetivo;

( V ) mandachuvas – substantivo composto formado pela junção de uma base verbal a

uma nominal;

( V ) relações – substantivo formado por derivação pelo acréscimo do prefixo re- a um radical.

07. (UFMS-Modificada) Assinale V para a sentença que for verdadeira e F para a que for falsa

( V ) De acordo com a norma culta, tanto em Chega um momento que você pára de acreditar… quanto em Tem um momento que você percebe…, o pronome relativo que deveria ter vindo acompanhado da preposição em.

( V ) O uso de ter (no exemplo acima), impessoal, por haver, existir, é muito comum na fala diária, embora não seja recomendado pela gramática normativa, que regulamenta a norma culta.

( F ) Em pára (mesmo exemplo) o acento diferencial foi usado por ser essa forma verbal uma palavra paroxítona, ao contrário da preposição para.

( F ) Em homens de verdade e sapatinho de cristal as locuções adjetivas em negrito podem ser substituídas, respectivamente, por verdadeiros e cristalino, sem que haja qualquer alteração de sentido.

( F ) Os verbos acreditar, exigir e perceber possuem a mesma regência verbal.

08. (UFPE) Assinale a alternativa em que a norma de concordância, verbal e nominal, foi inteiramente

respeitada.

a) A rejeição à idéia de inferioridade ou de submissão leva boa parte das pessoas que se preocupam com a questão dos empréstimos lingüísticos a exigirem um posicionamento das autoridades.

b) Se, em um país, existe, realmente, fatores de diferenciação que interfere na língua, existe também elementos de unificação com o objetivo de preservá-la.

c) O interesse do Brasil, como o de Portugal, é de que hajam resistências naturais aos modismos e aos empréstimos lingüísticos.

d) Aos termos regionais faltam força para atravessarem as fronteiras dos locais em que são empregados.

e) O número de termos regionais cresceram bastantes, mas, por não haverem sido bem aceitos, não se incorporaram à língua nacional.

09. (Emescam-ES) O princípio da concordância nominal não foi levado em consideração em:

a) Os governantes, infelizmente, se esquecem de que eles próprios são povo.

b) Cuidado, embora possam parecer, elas não são nenhumas doidas.

c) Fiquem alertas, porque nem sempre as promessas são cumpridas.

d) Não se preocupe, Joana mesma fará a comunicação oficial.

e) A encomenda, com alguns bilhetes anexos, foi enviada ontem de manhã.

10. (Univali-SC) Em um dos provérbios a seguir, há problema de concordância. Identifique-o.

a) “Quem não quer ser lobo, não lhe vista a pele.”

b) “Escreve as injúrias na areia e grava os benefícios no mármore.”

c) “Sede de preferência, pedreiro, se é para isso que tendes habilidade.”

d) “Matamos o tempo; o tempo nos enterra.”

e) “Crê em ti; mas nem sempre duvida dos outros.”

11. (PUC-RS – modificada)

INSTRUÇÃO: Para responder à questão, relacione as colunas, de modo que as expressões numeradas completem adequadamente as frases abaixo.

( 1 ) A descoberta _______ se referia o cientista era surpreendente.

( 4 ) Estes são dados sigilosos, ________ divulgação é reservada.

( 7 ) Áreas ________ há maior pobreza merecem toda atenção dos estudiosos.

( 6 ) A pesquisa, ________ não faltam recursos financeiros, está parada por razões políticas.

( 2 ) A penúria ________ passa grande parte da humanidade exige uma ciência técnica.

1. onde

2. que

3. a que

4. por que

5. cuja

6. à qual

7. aonde

8. pela qual

Texto para a questão 12:

“Tecnologia

Hackers invadem a rede de computadores da Microsoft

27-out-2000

Direção da maior empresa de softwares do mundo descobriram que invasores tiveram acesso

aos códigos produzidos pela companhia e chamam o FBI para ajudar nas investigações.”

Veja online – Notícias Diárias.

12. ( U. F. São Carlos-SP) No trecho reproduzido, incorre-se num erro gramatical, por conta:

a) da concordância do verbo “descobriram”.

b) do emprego de artigo em “aos códigos”.

c) da apassivação do verbo “produzidos”.

d) da regência do verbo “chamam”.

e) do complemento do verbo “tiveram”.

13. PUC/Campinas-SP A frase em que a regência verbal e a regência nominal estão INCORRETAS é:

a) Angustiada contra o sofrimento do filho, imaginou de recorrer a outro especialista.

b) A hesitação em defendê-la contra as maledicências propiciou a ela um bom motivo para romper o noivado.

c) Vendo-a ferida pelos espinhos, encharcou o lenço com água fresca e ofereceu-lho.

d) Ele foi bastante simples no falar, mas persuadiu os jovens a voltarem depois.

e) Estavam habilitados para discutir o fato e, além disso, eram muito competentes naquela matéria.

14. (U. Alfenas-MG)

“Já se sabe que o necrológico é de Baby, a elefantinha ____ morreu de infecção na garganta.

Esses animais são rústicos e delicados, e se no meio nativo se alimentam de plantas espinhentas,

____ contato fugimos, padecem entretanto dos mesmos males ____ padecemos, e têm, tanto

quanto nós, a desvantagem de uma sensibilidade _____ se ajustaria melhor ao nosso corpo que

ao deles, ao passo que a nossa poderia chamar-se mais precisamente elefantina.”

A alternativa que preenche, respectiva e adequadamente, as lacunas é:

a) que, de cujo, de que, que.

b) que, de cujo o, que, que.

c) a que, em cujo, de que, de que.

d) a qual, de cujo, dos quais, em que.

e) de que, de cujo, de que, que.

15.( ITA-SP) Leia o texto seguinte:

“Sítio Bom Jardim apresenta Forró Sertanejo com a banda Casa Nova, no dia 30 de outubro, a

partir das 21 horas. Mulher acompanhada até 24 horas não paga. Venha e participe desta festa.”

Jornal Vale ADC’S, out./1999, adaptado.

a) Localize o trecho em que há ambigüidade.

“Mulher acompanhada até 24 horas não paga”.

b) Aponte duas interpretações possíveis para esse trecho, considerando o contexto.

Considerando-se o contexto em que se encontra a frase, pode-se ter as seguintes interpretações:

— Até às 24 horas, a entrada é gratuita às mulheres que estiverem acompanhadas.

— A entrada é gratuita às mulheres que estiverem acompanhadas por até 24 horas.


16. (ITA-SP) Leia o texto seguinte:

“Antes de começar a aula — matéria e exercícios no quadro, como muita gente entende —, o

mestre sempre declamava um poema e fazia vibrar sua alma de tanta empolgação e os alunos

ficavam admirados. Com a sutileza de um sábio foi nos ensinando a linguagem poética mesclada

ao ritmo, à melodia e à própria sensibilidade artística. Um verdadeiro deleite para o espírito, uma

sensação de paz, harmonia.”

OSÓRIO, T. Meu querido professor. Jornal Vale Paraibano, 15/10/1999.

a) Qual a interpretação que pode ser dada à ausência da crase no trecho “a própria sensibilidade

artística”?

Sem a crase no trecho “a própria sensibilidade artística”, ele pode ser interpretado como

um objeto direto do verbo ensinar, não se tratando de um complemento nominal de mesclada.

b) Qual seria a interpretação caso houvesse a crase?

b) Com a crase o trecho passa a ter a função de complemento nominal de mesclada. Desta

forma, o professor ensinaria a linguagem poética mesclada ao ritmo, à melodia e à sensibilidade

artística.

17. (FGV-SP) Escolha a alternativa que completa corretamente o período:

“Marta acaba dereceber …… visita do professor de artes cênicas, que …… convidou para assistirem …… peça teatral, em exibição …… uma semana, …… poucos metros de sua casa”.

a) a, à, à, a, há.

b) a, a, à, há, a.

d) à, a, a, há, à.

e) a, a, à, a, a.

c) a, a, à, à, a.


18. 9UEMS) Ao comparar as diversas cidades do mundo com a cidade do Rio de Janeiro, defendia com ardume e paixão a beleza... sobre cada uma...

a) dessa – daquelas.

b) daquelas – destas.

c) destas – dessa.

d) desta – daquelas.

e) desta – dessas.

19. (Univali-SC) Identifique a opção correta quanto à colocação pronominal nos trechos retirados de jornais de circulação regional:

a) Que todo pai sinta-se imensamente feliz na comemoração de seu dia.

b) Por que todos os dias perdem-se tantos blocos de notas fiscais em Blumenau?

c) Preserve-a a todo custo. Não esqueça que para seu filho você é o maior herói.

d) O “Bem” do título acima, se expressa pela existência de postos de trabalho na quantidade

e qualidade requeridos por uma população... .

e) ... utilizando a imagem do “Zé Carioca” e outras, que mostram-nos menores e menos

capazes.

20. (U. Alfenas-MG) Dadas as sentenças:

I. Os projetos que me enviaram estão em ordem; devolvê-los-ei ainda hoje.

II. Não te conto toda a verdade já que preocupo-me demais com tua situação.

III. “Esses são os livros que se acham à disposição do público, mas acredita-se que poucos procurá-los-ão”.

IV. Quero que você se habitue com minhas falhas, eu deveria preparar-me melhor.

A seqüência que contém as frases corretas quanto à colocação dos pronomes átonos é:

a) II e III.

b) I e II.

c) I e III.

d) II e IV.

e) I e IV.

Simulado Terceirão - Específica de Literatura Gabaritada

Simulado Específica de Português / Literatura – 3º EM – 30 novembro 2007

Texto para as questões 01 e 02:

“À televisão

Teu boletim meteorológico

me diz aqui e agora

se chove ou se faz sol.

Para que ir lá fora?

A comida suculenta

que pões à minha frente

como-a toda com os olhos.

Aposentei os dentes.

Nos dramalhões que encenas

há tamanho poder

de vida que eu próprio

nem me canso em viver.

Guerra, sexo, esporte

— me dás tudo, tudo.

Vou pregar minha porta:

já não preciso do mundo.

PAES, J. P. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992

01.( UERJ) No poema, a televisão é humanizada, assumindo o papel de interlocutor do eu poético. Identifique o elemento lingüístico que melhor caracteriza essa humanização e transcreva um verso em que ele apareça.

RESPOSTA: O uso da segunda pessoa gramatical.

Um dentre os versos:

• Teu boletim meteorológico

• que pões à minha frente

• nos dramalhões que encenas

•me dás tudo, tudo.

02. (UERJ) Indique o tema geral do poema e explique como ele é abordado criticamente por José Paulo Paes.

Resposta: O tema geral é a sociedade do espetáculo ou a presença da tecnologia na vida do homem.

No texto a televisão representa esse tema geral, simbolizando a solidão humana


Texto para as questões 03 e 04:

“O Império das Lentes

Nas cerimônias de casamento, as retinas das testemunhas foram substituídas pela camcorder do sujeito de terno gasto que grava o enlace andando de um lado para o outro (o distinto padre pode dar licença, por favor?). Cônscia de sua relevância mística, a madrinha chora no exato instante em que os refletores lhe incandescem a maquiagem. Nas festas de escolas primárias, os alunos aprenderam a se apresentar para filmadoras e não mais para pais e mães. Sob o foco automático, a criança já não enxerga o sorriso de orgulho ou de apreensão na face do pai; vê apenas a handycam2 que mascara o seu rosto. Se a televisão é a arena da história contemporânea, as câmaras de vídeo domésticas se tornaram o olhar autorizado da intimidade familiar (e de outras intimidades nem tão familiares assim). Nas férias, o estranho fenômeno se generaliza, escancarando em público o vazio em que existimos. O viajante já não é aquele que contempla o desconhecido, que se reserva a chance do inesperado, que vive, enfim. Protegido por sua máscara eletrônica,

que o poupa de estar exposto ao destino, ele apenas grava imagens, e normalmente muito rápido, como quem ainda tem uma longa lista a cumprir. O turista é um apressado. Depois, claro, jamais terá tempo de rever o que filmou. Continuará com pressa. De bom grado, ele substitui a própria memória pela fita magnética, mas esta também logo se perderá numa estante empoeirada, guardando imagens sem nexo. São as imagens do espetáculo que não foi vivido, pois quem poderia vivê-lo se ocupou em gravá-lo (ou em posar para a gravação). Ali jaz a vida que poderia ter sido. Ali jaz o desejo que não se satisfez, pois entre ele e o turista havia um muro transparente, um vidro, uma câmara, essa engenhoca que reina soberana no espaço exíguo que separa o homem de si mesmo.”

BUCCI, Eugênio. Veja, 03/12/1996.

1camcorder – filmadora

2handycam – filmadora de mão

03. (UERJ) Cônscia de sua relevância mística, a madrinha chora no exato instante em que os refletores lhe incandescem a maquiagem.

No trecho citado, o autor emprega a ironia para intensificar sua crítica à situação descrita.

Explique como esse recurso de linguagem intensifica a referida crítica.

RESPOSTA: A ironia é empregada para desmascarar atitudes e poses produzidas exclusivamente para

as câmeras.

04. (UERJ) Ali jaz a vida que poderia ter sido.


Esta sentença, no primeiro momento, parece uma contradição.

Identifique, em uma frase completa, essa contradição aparente.

RESPOSTA: A contradição está em usar para o sujeito “a vida” o predicado “jaz”, que se associa à

morte.

05 (Fuvest-SP)


I. Para se candidatar a um emprego, o recém-formado compete com levas de executivos de altíssimo gabarito, desempregados. O jovem, sem experiência, literalmente, dança.


II. Acostumados às apagadas, às vezes literalmente, mulheres dos dirigentes do Kremlin, os russos achavam que ela era influente demais, exibida, arrogante.

a) O advérbio “literalmente” está adequadamente empregado nos dois textos? Justifique sua resposta.

RESPOSTA: Não, o advérbio “literalmente” não está adequadamente empregado nos textos. O termo

“literal” é utilizado quando o sentido da palavra a que se refere é exatamente o que a

palavra diz, não podendo ser ampliado e ela não podendo ser interpretada de outra forma.

b) A que palavra, em II, se refere a expressão “às vezes literalmente”? Qual o duplo sentido produzido pela relação que aí se estabeleceu?

RESPOSTA: A expressão se refere às mulheres dos dirigentes. O duplo sentido se deve ao fato de que

pode-se interpretar ou que as mulheres eram mesmo apagadas ou que nem sempre eram as

esposas dos dirigentes.


06. (Unicamp-SP) Na coluna “De zero a dez”, de Rubem Tavares, publicada na revista Business Travell, 34, no primeiro semestre de 2000, p. 13, encontram-se, entre outras, as seguintes notas, parcialmente adaptadas:

“Para os lunáticos que insistem em soltar balões de grande porte, causando incêndios e sérios riscos à segurança dos vôos: segundo o Controle de Tráfego Aéreo, em 1998 foram registradas 99 ocorrências em Guarulhos. Em todo o ano passado foram registradas 33 ocorrências e, neste ano, só no período de janeiro a abril, já foram 31. As autoridades deveriam enquadrar os responsáveis por crime inafiançável e trancafiá-los em presídios por longos anos.”

“Não seria o caso de a Prefeitura pagar por cada nova pichação feita na cidade? É claro que sim. Se todos entrassem com uma ação simultaneamente, com certeza o prefeito encontraria novas atribuições para a Guarda Municipal. Vide sugestão na nota anterior que também poderia ser aplicada nestes casos.”

a) Qual é a conclusão implícita na seqüência “neste ano, só no período de janeiro a abril, já foram 31”, que se encontra na primeira nota?

RESPOSTA:

Considerando-se os quatro meses de janeiro a abril, em que ocorreram 31 ocorrências,

e os doze meses do ano anterior, no qual ocorreram 33 ocorrências, entende-se que a

situação piorou muito, já que se prevêem 93 ocorrências para o ano atual.

b) Explicite a sugestão dada no final da segunda nota:

RESPOSTA: O final da segunda nota sugere que os pichadores, tanto quanto os baloeiros, sejam

enquadrados como “responsáveis por crime inafiançável” e trancafiados “em presídios

por longos anos”.

07. (Unicamp-SP) Considere o poema a seguir

“Inventário

Povoam o escritório

vários utensílios

uns bastante sóbrios

outros indiscretos

Por exemplo: a mesa

é sóbria. Rumina

todos os papéis

no oco das gavetas

O que a mesa expele

para a superfície

é simples dejeto

livre de mistério

O arquivo também

é móvel discreto

e diz muito pouco

de interesse humano

A caneta, o lápis

o papel, o cesto

são só instrumentos

sem vontade própria

Dois os indiscretos:

minhas duas mãos —

úlcera no estômago

da repartição

Aparentemente

peças quase iguais

às demais: os mesmos

modos funcionais

Contudo é preciso

vê-las em sua marca:

no rastro dos dedos

no selo do gesto

Ali onde transgridem

a ética da classe

que proíbe os objetos

de serem pessoais

Onde desconhecem

o acordo em vigor

que as coisas transforma

em armas submissas

Não pactuam — hostis

minhas duas mãos

acidulam o ar

da repartição”

ALVIM, Francisco. Amostra Grátis. In: Poesias Reunidas (1968-1988). São Paulo: Duas Cidades, 1988

a) De qual critério se serve o poeta para classificar as diferenças entre os “vários utensílios” que “povoam o escritório”? Por que essa classificação destoa tanto da nossa percepção habitual?

Resposta: Através do eu lírico, o poeta personifica os objetos, atribuindo-lhes características de

um ser vivo, sobressaindo-se a discrição e a indiscrição, visto que os utensílios que “povoam”

o escritório, são caracterizados como sendo sóbrios. Excetuam-se, porém, as mãos do

eu lírico, cuja principal característica é a indiscrição, principalmente em comparação com

os objetos do escritório. Suas mãos são voluntariosas, pessoais, enquanto os objetos são

impessoais, discretos.

Essa classificação dos objetos destoa de nossa percepção habitual porque contrasta com a

impessoalidade com a qual os vemos. Pode-se notar no poema uma percepção de que a

poesia humaniza o espaço circundante, o qual é automatizado, impregnado por uma rotina

que impede uma visão mais humana da vida.


b) Como aparece a presença humana em meio ao ambiente da repartição?

Resposta: A presença humana se dá no poema por meio das mãos do eu lírico. Elas possuem um

poder transformador, visto que, embora aparentemente sigam as mesmas regras da rotina

de trabalho dos objetos que a circundam, podem interferir na realidade do ambiente em

que se encontram. Como as mãos são características humanas, pode-se dizer que no poema

é destacada a importância do homem, que se sobressai na repartição, sendo o responsável

pela existência das coisas que o cercam e por sua presença aí, já que com elas se

relaciona.

08. ( ITA-SP) O texto a seguir foi publicado na seção “Cartas do leitor” da Folha de S. Paulo de 30/08/2000. Referida a um crime que teve repercussão na imprensa escrita e falada, esta carta dá uma notável demonstração de machismo e desprezo pelas mulheres..

“A recente morte violenta de uma jornalista choca a todos porque, nesse fato, o assassino foge ao perfil comum de tais tipos, mas certas situações que levam a isso estão aí, nos círculos milionários, meios artísticos, esportivos e de poder. Tudo porque o homem não aprende. Há milênios, gosta de passar aos demais uma imagem de eterna juventude e virilidade, posando com fêmeas muito mais jovens. Fingem acreditar que elas estão aí por amá-los. São poucas vezes atraídas pelo seu intelecto, e muitas pela fama, poder e dinheiro. A durabilidade de tais ligações, no geral, termina quando tal fêmea atinge seu objetivo. Pior ainda, quando essa fêmea mostra também intelecto e capacidade de sobrevivência sem seu protetor. Duro, triste, real.”

ZANINI, Laércio. Garça, SP

a) O texto usa, em relação às mulheres, um termo fortemente conotado, e lhes atribui um comportamento que as desqualifica. Transcreva uma frase em que o termo ocorre, associado à descrição de comportamentos que desqualificariam as mulheres. Sublinhe o termo em questão na sua frase.

Resposta: “A durabilidade de tais ligações, no geral, termina quando tal fêmea atinge seu objetivo.”

(Sendo que o objetivo em questão é a fama, o poder e o dinheiro.)

b) Quais os traços de caráter das mulheres em relação aos quais os homens deveriam se precaver, segundo o autor dessa carta?

Resposta: Segundo o autor da carta os homens deveriam tomar certo cuidado no que diz respeito

à astúcia e à ambição das mulheres, visto que a ambição leva as mulheres a aproximar-se

dos homens para conseguir fama, poder e dinheiro e, uma vez atingidos seus objetivos,

podem libertar-se do protetor.

c) A quem se refere o autor da carta, na frase “o homem não aprende”?

Resposta: A todos os seres humanos do sexo masculino.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Eduardo Campos

O dramaturgo cearense octogenário foi selecionado em fins de junho para o vestibular da UFC/2008 com o livro "Três Peças Escolhidas". Infelizmente ainda desconhecido de um grande público, morreu dia 19 de setembro último.

A fim de facilitar para o pré-vestibulando, aqui vão alguns sítios sobre esse escritor:

EC

Jornal da poesia - Soares Feitosa, dono deste sítio, sempre prestigiou o artista local.

Caderno 3 - DN - notícia sobre a morte do escritor

Governo do Ceará
- uma homenagem póstuma ao "Manuelito", como era conhecido Mamuel Eduardo Campos pelos colegas de trabalho.

DN - Cidade - Adeus à Manuelito Eduardo Campos

JP - Nilto Maciel - ensaio sobre o contista Eduardo Campos

O Povo - Adeus emocionado a Eduardo Campos

Mebusca - Morre o jornalista Eduardo Campos

O Povo - Falee Eduardo Campos

Governo do Estado do Ceará - 25/03/2004 - EDUARDO CAMPOS É AGRACIADO COM A MEDALHA DA ABOLIÇÃO

[PDF]O escritor e jornalista Eduardo Campos conta sua história de vida ...Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat

UFC - Biblioteca homenageia Eduardo Campos

Letras e livros - sobre a morte de Eduardo Campos

Prefeitura de Pacatuba - 3 dias de luto por seu filho, Eduardo Campos

Grupo Clã - grupo literário ao qual pertenceu o jornalista, contista e dramaturgo Eduardo Campos

Blogue de Elomar de Lima - morte de Eduardo Campos

Amigos do Livro - dizem que ele [Manuel Eduardo Campos] via coisas lindas...

João Soares Neto - 80 anos de Eduardo Campos

Assembléia Legislativa - um minuto de silêncio por Eduardo Campos

UFC - profundo sentimento de perda

O Imortal de Pacatuba - Adeus

Navegador Brasileiro - Peças comentadas : "A Rosa do Lagamar", "A Donzela Desprezada" e "Morro do Ouro" - Paulo de Tarso Pardal

Livros & Livros - Falece Eduardo Campos

Ceará Rádio Club - por Manuel Eduardo Pinheiro Campos


Bom vestibular!




"Esaú e Jacó" - a obra


Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.


Esaú e Jacó é o penúltimo livro de Machado de Assis (1839-1905), lançado 4 anos antes da sua morte e, segundo a maioria dos críticos, em pleno apogeu literário, depois de escrever, em 1899, Dom Casmurro, o mais célebre de seus livros.

Esaú e Jacó se destaca por consolidar esta suave maestria no domínio da narrativa. Machado despoja-se da excentricidade ocasional num texto que abandona resquícios do picaresco e envereda num realismo que retoma a melancolia e o lirismo que se iniciara na primeira fase de sua produção literária. Destaque são os personagens muito próximos da vida real.

O Conselheiro Aires é um personagem poderoso que contracena com Natividade, mãe dos gêmeos Pedro e Paulo, que protagonizam este romance. E Machado chega quase à perfeição formal ao estabelecer esta trama fascinante onde os iguais são opostos e concorrentes. Discordam na política, na vida, sempre em campos opostos, um contra o outro, chegando mesmo a cortejar a mesma mulher.

A ambigüidade narrativa se instaura com o Conselheiro Aires, personagem e narrador, que no entanto, também é visto a partir de uma terceira pessoa. Machado por esse jogo de opostos pode comentar um tempo de grande agitação política. Não sendo estranho ao livro temas como abolição da escravatura, encilhamento e Estado de sítio, porém o tema melhor abordado e reconhecido é a Proclamação da República, à qual se faz uma tremenda crítica.

O livro tem mais de cem anos de existência. Esaú e Jacó , escrito em 1904, foi o penúltimo romance de Machado de Assis, trazendo uma particularidade: reflete a posição política de um homem tido como alheio aos movimentos de tal natureza. O escritor retoma, no título, a referência bíblica — típica de sua ficção — remetendo a história de Pedro e Paulo ao episódio do Antigo Testamento ( Gênesis, capítulos 27 a 33) . Os gêmeos nos trazem reflexões políticas que, certamente, ocupavam o imaginário da época, além de Flora, apaixonada pelos irmãos, que caracteriza a indecisão, marca registrada da obra machadiana, que nada afirma sem, logo a seguir, meter a dúvida de permeio. Machado de Assis utiliza as duas personagens — Pedro e Paulo — para, em cada uma, incorporar seu espírito hesitante e em constante luta íntima na grande questão que nos traz esta obra: Monarquia X República. O livro possui uma particularidade: refletir a posição política de um homem tido como alheio a movimentos de tal natureza. Acusado de indiferente, frio e inteiramente desligado das paixões políticas, Machado de Assis, nesta obra, discute e analisa uma das mais importantes épocas da política brasileira.

Vê-se que a obra se ocupa do período de 1855 a 1890, época cuja importância é fundamental na evolução da sociedade brasileira. Neste período de nossa história, temos a economia do café, extinção do trabalho escravo e o emprego da mão-de-obra livre. Há grandes transformações urbanas e a população cresce a cada dia. O autor procura registrar a transição Império/República, o que dá ao texto o nível histórico.

Uma curiosidade deste livro é que Machado de Assis não se coloca como autor da obra. Logo em seu início, há uma advertência onde diz que os manuscritos que deram origem ao livro foram encontrados após a morte do Conselheiro Aires. Machado, então, monta a sua narrativa a partir dos manuscritos do Conselheiro.

A referência bíblica é típica da ficção machadiana e aparece em todos os livros anteriores a este. Através dela, o autor infunde um caráter de parábola à narrativa, dimensionando-a em curto grau de universalidade. A obra faz menção a um episódio, como já foi dito, do Antigo Testamento: como Rebeca era estéril, Isaac implorou a Jeová que lhe concedesse filhos. Concebendo gêmeos e sentindo-os lutar em seu útero, ela interroga a Deus que responde: “duas nações há no teu ventre, dois povos nascidos de ti, que se dividirão; um povo será mais forte do que o outro e o mais velho servirá ao mais moço”. Esta referência fixa, desde já, o nível mítico do discurso. A ação que transcorrerá opondo Pedro e Paulo reporta-se a uma realidade arquetípica, inerente à própria natureza humana e diz respeito às suas origens.

Também é importante notar como Machado vai localizando objetivamente a ação num cenário específico da vida urbana. O autor, como de costume, faz menção minuciosa de lugares, hábitos, profissões e convenções. Revela-se, assim, uma fotografia bastante nítida do código social da burguesia brasileira na segunda metade do século XIX, sendo possível, até mesmo, reconstituí-la através do texto machadiano.

Retomando a análise de Pedro e Paulo, é através destas duas personagens que nos chegam as pulsações políticas do autor. Para resumir o nível de confronto dos irmãos, digo apenas uma coisa: se perguntados sobre a data de seus aniversários — 7 de abril de 1870 — Paulo diria: “Nasci no aniversário do dia em que Pedro I caiu do trono”. E Pedro: “Nasci no aniversário do dia em que sua Majestade subiu ao trono”.

Flora, personagem dúbia, seria o amor de ambos. Ela não se decide e eles que sempre divergiam concordam com o fato de que nenhuma outra mulher teria as qualidades de Flora e disputam-na. Pedro, Paulo e Flora habitam esta região do mundo machadiano, que são os mais de cem capítulos desta obra, com o objetivo de contrastarem idéias do autor.

Na realidade, os dois não são mais que um, se temos que distinguí-los simbolicamente como meio de expressão de um conjunto de idéias e não, meramente, como personagens. Machado serve-se, digamos assim, dos irmãos para em cada um incorporar o seu espírito hesitante e em constante luta íntima. A segunda metade do século XIX, como disse, rica historicamente, não o seduziria a ponto de fazê-lo tomar parte ativa nos movimentos que culminaram com a abolição da escravatura e a proclamação da República, entre outros.

Havia em Machado de Assis — consumido lentamente pela epilepsia — uma preocupação maior que todas: a de firmar sua personalidade antes que o “grande mal” o vencesse. Firmou, mas foi vencido por outra doença: o câncer. Esaú e Jacó , por certo, foi interrompido mais de uma vez pelas crises e ataques que o prostravam ao leito por dias seguidos.

A proclamação da República merece, na narrativa, mais do que a habitual atenção de Machado de Assis dispensada a um acontecimento político. Trata-se do episódio da tabuleta; ele, melhor do que ninguém, define a exata posição do autor e do povo diante do fato. Custódio, dono de uma confeitaria no Catete, vê-se em sérios problemas com a queda da monarquia e “se pudesse liquidava a confeitaria, afinal que tinha ele com política? Era um simples fabricante e vendedor de doces, estimado, afreguesado, respeitado e principalmente respeitador da ordem pública…”.

Este episódio inicia-se no capítulo 49 e só se completa no capítulo 63. Talvez em nenhuma outra passagem da obra de Machado de Assis a questão das relações entre credos políticos e o individualismo burguês tenha recebido tratamento tão irônico. O temor e a avareza qualificam o conceito de propriedade, expressando-se na busca de um título “simultaneamente definitivo, popular e imparcial” que o defenda em qualquer circunstância. Este diálogo se dá entre Custódio e o Conselheiro Aires. Tudo começa quando Custódio, dias antes da proclamação da República, manda pintar uma tabuleta que dizia “Confeitaria do Império”. Passo, então, após este introdutório que, certamente, despertou a curiosidade dos que não o conhecem, a transcrevê-lo.

“— Mas o que é que há? Perguntou Aires.

— A república está proclamada.

— Já há governo?

— Penso que já; mas diga-me V.Ex.ª: ouviu alguém acusar-me jamais de atacar o governo? Ninguém. Entretanto, uma fatalidade! Venha em meu socorro, Excelentíssimo. Ajude-me a sair deste embaraço. A tabuleta está pronta, o nome todo pintado. —‘Confeitaria do Império', à tinta é viva e bonita. O pintor teima em que lhe pague o trabalho, para então fazer outro. Eu, se a obra não estivesse acabada, mudava de título, por mais que me custasse, mas hei de perder o dinheiro que gastei? V.Ex.ª crê que, se ficar ‘Império', venham quebrar-me as vidraças?

— Isso não sei.

— Pessoalmente, não há motivo; é o nome da casa, nome de trinta anos, ninguém a conhece de outro modo…

— Mas pode pôr ‘Confeitaria da República'…

— Lembrou-me isso a caminho, mas também me lembrou que, se daqui a um ou dois meses, houver nova reviravolta, fico no ponto em que estou hoje e perco outra vez o dinheiro.

— Tem razão… sente-se.

— Estou bem.

— Sente-se e fume um charuto.

Custódio recusou o charuto, não fumava. Aceitou a cadeira. Estava no gabinete de trabalho, em que algumas curiosidades lhe chamariam a atenção, se não fosse o atordoamento do espírito. Continuou a implorar o socorro do vizinho. S. Exª. com a grande inteligência que Deus lhe dera, podia salvá-lo. Aires propôs-lhe um meio-termo, um título que iria com ambas as hipóteses — ‘Confeitaria do Governo'.

— Tanto serve para um regímen como para outro.

— Não digo que não, e, a não ser a despesa perdida… Há, porém, uma razão contra. V.Exª. sabe que nenhum governo deixa de ter oposição. As oposições, quando descerem à rua, podem implicar comigo, imaginar que as desafio, e quebrarem a tabuleta; entretanto o que eu procuro é o respeito de todos.

Aires compreendeu bem que o terror ia com a avareza. Certo, o vizinho não queria barulhos à porta, nem malquerenças gratuitas, nem ódios de quem quer que fosse; mas, não o afligia menos a despesa que teria de fazer de quando em quando, se não achasse um título definitivo, popular e imparcial. Perdendo o que tinha, já perdia a celebridade, além de perder a pintura e pagar mais dinheiro. Ninguém lhe compraria uma tabuleta condenada. Já era muito ter o nome e o título no Almanaque de Laemmert, onde podia lê-lo algum abelhudo e ir com ou outros, puni-lo do que estava impresso desde o princípio do ano…

— Isso não, interrompeu Aires; o senhor não há de recolher a edição de um almanaque.

E depois de alguns instantes:

— Olhe, dou-lhe uma idéia, que pode ser aproveitada, e, se não a achar boa, tenho outra à mão, e será a última. Mas eu creio que qualquer delas serve. Deixe a tabuleta pintada como está, e à direita, na ponta, por baixo do título, mande escrever estas palavras que explicam o título: ‘Fundada em 1860'. Não foi em 1860 que abriu a casa?

— Foi, respondeu Custódio.

— Pois…

Custódio refletia. Não se lhe podia ler sim nem não; atônito, a boca entreaberta, não olhava para o diplomata, nem para o chão, nem para as paredes ou móveis, mas para o ar. Como Aires insistisse, ele acordou e confessou que a idéia era boa. Realmente, mantinha o título e tirava-lhe o sedicioso, que crescia com o fresco da pintura. Entretanto, a outra idéia podia ser igual ou melhor, e quisera comparar as duas.

— A outra idéia não tem a vantagem de pôr a data à fundação da casa, tem só a de definir título, que fica sendo o mesmo, de uma maneira alheia ao regímen. Deixe-lhe estar a palavra império e acrescente-lhe embaixo, ao centro estas duas, que não precisam ser graúdas: das leis. Olhe, assim, concluiu Aires, sentando-se à secretária, e escrevendo em uma tira de papel que dizia.

Custódio leu, releu e achou que idéia era útil; sim, não lhe parecia má. Só lhe viu um defeito: sendo as letras debaixo menores, podiam não ser lidas tão depressa e claramente como as de cima, e estas é que se meteriam pelos olhos ao que passasse. Daí a que algum político ou sequer inimigo pessoal não entende logo, e… A primeira idéia, bem considerada, tinha o mesmo mal, e ainda este outro: pareceria que o confeiteiro, marcando a data da fundação fazia timbre em ser antigo. Quem sabe que não era pior que nada?

— Tudo é pior que nada.

— Procuremos.

Aires achou outro título, o nome da rua, ‘Confeitaria do Catete', sem advertir que havendo outra confeitaria na mesma rua, era atribuir exclusivamente a Custódio a designação local. Quando o vizinho lhe fez tal ponderação, Aires achou-a justa, e gostou de ver a delicadeza de sentimentos do homem; mas logo depois que o que fez falar o Custódio foi a idéia de que este título ficava comum às duas casas. Muita gente não atinaria com o título e compraria na primeira que lhe ficasse à mão, de maneira que só ele faria as despesas da pintura, e ainda por cima perdia a freguesia. Ao perceber isso, Aires não admirou menos a sagacidade de um homem que, em meio a tantas tribulações, contava os maus frutos de um equívoco. Disse-lhe então que o melhor seria pagar a despesa feita e não por nada, a não ser que preferisse seu próprio nome: ‘Confeitaria do Custódio'. Muita gente certamente lhe não conhecia a casa por outra designação. Um nome, o próprio nome do dono, não tinha significação política ou figuração histórica, ódio nem amor, nada que chamasse a atenção dos dois regimens, e conseguintemente que pusesse em perigo os seus pastéis de Santa Clara, menos ainda a vida do proprietário e dos empregados. Por que é que não adotava esse alvitre? Gastava alguma coisa com a troca de uma palavra por outra, ‘Custódio' em vez de ‘Império', mas as revoluções trazem sempre despesas.

— Sim, vou pensar, excelentíssimo. Talvez convenha esperar um ou dois dias, a ver em que param as modas, disse Custódio agradecendo.

Curvou-se, recuou e saiu. Aires foi à janela para vê-lo atravessar a rua. Imaginou que ele levaria da casa do ministro aposentado em lustre particular que faria esquecer por instantes a crise da tabuleta. Nem tudo são despesas na vida, e a glória das relações podia amaciar as agruras deste mundo. Não acertou desta vez. Custódio atravessou a rua, sem parar nem olhar para trás, e enfiou pela confeitaria dentro com todo sem desespero”.

Não entram aí, por transferência, certos elementos da biografia do autor? Como o “fabricante e vendedor de doces”, “afinal, o que tinha ele a ver com política?” “Respeitado” e “respeitador da ordem pública”; quem o foi mais Machado de Assis?

Situar as tendências de Machado de Assis relativas à política, colocando-o ao lado da República e contra o Império, tem sido, como dissemos, a maior preocupação dos machadianos. A verdade, porém, é que o romancista nutria por D.Pedro II e a Família Imperial grande estima. Ainda jovem, dedicou nas colunas de A Marmota , um soneto ao Imperador.

“Nesse trono, Senhor, que foi erguido

por um povo já livre, e sustentado

por ti, que alimentando as leis, o estado

hás na história teu nome engrandecido.

Neste trono, Senhor, onde esculpido

tem a destra do eterno um nome amado

vês nascer este dia abrilhantado

sorrindo a ti, monarca esclarecido!

Eu te saúdo neste dia imenso!

Da clemência, justiça sã, verdade

queimando as piras perfumoso incenso!

Elevando aos umbraes da imensidade

terá fama, respeito e amor intenso!

Um nome transmitido à eternidade!”

Rio de Janeiro, 02 de dezembro de 1855
Machado de Assis


Depois disso, por diversas vezes se reporta com incontida admiração ao Monarca retratado pelos adeptos do novo regime. A crença de que os monarquistas eram retrógrados desapareceu com os reacionários da república. Sem fazer afirmações, ou melhor, fazendo-as para, ao mesmo tempo, invalidá-las com um ponto de interrogação, Machado de Assis não se deixa apanhar facilmente.

Voltemos a Flora. Ela oscila como um pêndulo entre o amor de Pedro e Paulo e, até a morte, hesita. Chega a ter alucinações. Ouve vozes. E, fundindo-as em apenas uma, de tão iguais que eram, transforma os gêmeos em uma única pessoa.

O drama de Flora consiste em não se decidir, tal era a atração pelos gêmeos. Machado de Assis resume os anseios da moça assim: “Era um espetáculo misterioso, vago, obscuro em que as figuras visíveis se faziam impalpáveis, o dobrado ficava único, o único dobrado, uma fusão, uma confusão, uma difusão”.

A complexidade dos sentimentos que fazem de Flora um símbolo da indecisão de Machado de Assis põe a descoberto uma constante no espírito titubeante do seu criador. Tomar uma decisão constituiu, sem a menor dúvida, algo penoso, quase uma transgressão consigo mesma, para quem, de preferência, acreditava nas coisas boas e más, sem revoltas violentas ou medidas drásticas. A rebeldia machadiana, como a de Voltaire, se manifesta sutilmente nos ditos satíricos, na ironizante e particular maneira de mostrar, nos lábios, um sorriso de desdém e, nos olhos, ocultar as lágrimas de compaixão pelas aspirações humanas. Interrogações seguidas de resposta cética e imediata como esta: “Vives? Não quero outro flagelo”. Expõe feridas e cicatrizes íntimas. Em Machado de Assis, tão introvertido, o humor seria uma válvula de escape em textos carregados de impressões refinadas pela sua sensibilidade.

Esaú e Jacó , pelos motivos expostos, poderia intitular-se Indecisão . As personagens, mesmo as secundárias, não possuem caracteres positivos estáveis; atravessam a obra como criaturas que dão a impressão de incerteza ao primeiro olhar. A figura de Flora não se fixa na memória do leitor sem deixar um rastro de dúvidas quanto à sua preferência por um dos gêmeos. Termina sem chegar a separar Pedro e Paulo, fundindo-os num só, tal como acontecia em suas alucinações.

Na forma, Esaú e Jacó , como expressão literária, é uma obra-prima pouco lembrada pelos críticos. Machado de Assis atinge uma superioridade estilística só mesmo inferior à que conquista em Memorial de Aires . As idéias de Machado são como as moedas: possuem duas faces — cara e coroa —; o seu valor, porém, torna-as únicas.



Para saber mais: Por trás das letras, do professor Teotônio Marques Filho